sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Sobre a arte de ser Anti-flamenguista


Ser alternativa a um cenário que se apresenta pleno de luzes, bordados e rococós é um exercício árduo e que exige paciência constante, esquiva ágil dos melhores lutadores de boxe e a elegância clássica do esgrimista para o combate. Isto é, uma luta que não perde de vista a leveza, usando golpes de inteligência como se fossem ganchos no queixo e a fina pena da ironia tal qual nocaute. Aquele que nasceu para ter discursos que fogem aos padrões estabelecidos por sua cultura, idéias que causam espanto ou temor à moralidade vigente e projetos que levam tesouras voadoras de setores do poder midiático há de ser, sobretudo, um forte, parafraseando o escritor.

E já que um velho escritor veio por aqui se aninhar, ser diferente nada mais é do que ser poético, lírico e épico. É contornar ilusões que maiorias alucinadas julgam ser realidades tão concretas quanto cimento. É alimentar a alma com a carne da arte, da beleza e da dignidade em detrimento de miragens que só enchem a barriga de ar e transparência. O Vasco nasceu daí, da necessidade de algo díspar, fundado no simples desejo de construir novos caminhos. É repetir o óbvio que a escolha do nome do clube mais que centenário foi tecida por artesões precisos, sabedores do pioneirismo do Almirante português e seus feitos que, àquela época, somavam quatrocentos bravos anos. Deixando de lado títulos de bairros, cidades ou cópias de nomes ingleses, os fundadores preferiram ser originais na sua criação. E se a certidão de nascimento da instituição surgiu com dizeres únicos, imaginem todo o longo mar de história que veio depois.

Enquanto uns brigavam feito os irmãos Karamazov do lado aristocrático do Rio, no subúrbio, o Vasco da Gama navegava outras ondas. Não é pra menos que desde sempre foi alcunhado de estrangeiro, de exilado, de forasteiro, quando, na mais íntima das verdades, era o maior símbolo brasileiro incrustado nas terras cariocas. Como não pensar brasileiríssimo o primeiro clube que aceitou aos borbotões todos os cidadãos sem julgamentos de cor ou classe social? Pagou um preço por tamanha desfaçatez, segundo os que arrotavam a moral do início do século passado. Não viu problema em bancar o lado para o qual apontava a sua bússola. Não se contorceu, não quebrou sua espinha, não cedeu um milímetro dos seus sonhos tão reais. Seguiu em frente, sem olhar para os que zombavam e clamavam chavões moralistóides. Tolos esses que pisavam o presente de modo tão convicto que não perceberam ser o futuro algo inexorável e, por muitas vezes, vingativo. Mal sabiam eles que as décadas vindouras seriam mestiças, brasileiras, cruzmaltinas.

Hoje sabemos que não foi o bastante cruzar tantas tormentas (para o vascaíno, navegar e abrir novos caminhos, dobrando cabos e conquistando espaços há de ser esforço cotidiano) apesar de alguns poucos ainda cravejarem o nome Club de Regatas Vasco da Gama nas enciclopédias, mais por obrigação do que por prazer. Muitos continuam cantando as mesmíssimas canções pra boi dormir de oito ou nove décadas atrás, sem se preocuparem se estão fora de moda ou se pregam preconceitos velados e pantanosos. Fazer de tudo um pouco jamais foi aplaudido, elogiado ou condecorado. Ter sido singular por mais de um século contra tantos interesses envolve uma dívida que não se pagou, nem nunca se pagará. Eles se reconhecem como cobradores e o Vasco da Gama com sua altivez peculiar passa ao largo, pois sabe que jamais deveu nem nunca deverá. Se a paixão simbolizada por uma cruz encarnada deve algo é apenas ao seu próprio desejo fundador e nada mais. Apesar de alguns ainda se prestarem a pagar tais dívidas ilusórias com caras envergonhadas, sussurros empobrecidos, sorrisos nervosos, almas em penitência e visitas protocolares a tribunas de honra para cumprimentos de quem só sabe dizer amém, a caravela continuará singrando os mares diante de sua eterna paisagem: os outros.

E, convenhamos, não há nada mais precioso do que um panorama como o de hoje, paisagem das mais belas para qualquer vascaíno que se preze seguir seu curso de fronte alta. Diante de uma história escrita com tinta aristocrática em papeletas amarelas, forjada em berço rico, vivida em casa de família requintada com vistas pra Lagoa (com paredes decoradas pelos melhores ladrilheiros da cidade; gosto estético deles, fiquemos com os belos azulejos portugueses) e fermentada com boas colheres de surrealismo popularesco (até os paralelepípedos de Nelson Rodrigues sabem como fizeram para esconder todo um enredo para baixo do tapete e ilustrar tudo isso com muito pão e circo), o Flamengo fez o que dele se espera sempre em condições naturais de temperatura e pressão: caiu na real, escorregou na alucinação, tropeçou na fantasia de carnaval ("Pra tudo se acabar na Quarta-Feira", como diria apropriadamente um velho samba da Vila Isabel do vascaíno Martinho da Vila) e do alto do prédio do orgulho deslumbrado viu seu sonho megalômano ruir mais uma vez diante de um Barueri qualquer da vez. Como eles mesmo dizem no auge da euforia maníaca (já há medicamentos pra isso): "Deixou chegar.". Pois é, deixaram o Flamengo chegar. À depressão. Mais uma vez.

Como é da sua natureza, não demorará muito para voltar a vestir mantos sagrados ou quaisquer outros paramentos com nomes tão pomposos quanto. Afinal, para uma Nação com maiúscula, manchetes de jornal em letras garrafais e onde um simples beber d'água se torna um ato grandiloquente, nada como viver em sono eterno, sonhando. Se às vezes é necessário acordar para a realidade do pão-com-manteiga sem cenários oníricos dignos dos filmes de Fellini, não há problema: é só dormir de novo e embarcar na onda do lema "Deixou chegar.". Quem sabe um dia, não acordam de vez e, finalmente, voltam a 1895, reescrevem a própria história à custa de muita restauração e percebem o que realmente são: irmãos gêmeos do Fluminense, apenas e tão somente isso.

Assim, ser anti-flamenguista é uma arte, obra que demanda sangue e coragem nos tempos monocórdicos e totalitários de hoje. É nadar contra a corrente, bater de frente com aquela parte da imprensa de sempre que parece ter herdado os germes de seus bisavôs. É expressar a eterna tentativa de não trair a própria natureza por outros interesses. É enfrentar a realidade com unhas e dentes, sem fugir dela em busca de mitologias baratas. Aos tímidos e desinformados de plantão, ser anti-flamenguista não é da ordem da inveja, da ira ou de qualquer outro pecado capital. Não é desejo de postular tolices hierárquicas. Bobagem. É, simplesmente, ser diferente. E escolhemos navegar nossas diferenças com a Cruz de Malta tatuada no peito.

Pouco, muito pouco, para quem não entende. Tudo para quem comunga do mesmo sentimento.
Rafael Fabro